Venezuela Sofre Pior Terremoto em Mais de um Século; Tremores Sacodem Prédios no Brasil
Na noite de 24 de junho de 2026, dois terremotos consecutivos de grande magnitude sacudiram a costa norte da Venezuela, destruindo bairros inteiros, derrubando edifícios e deixando ao menos 164 mortos e quase mil feridos. O desastre ocorreu em meio às celebrações do feriado nacional que comemora a Batalha de Carabobo de 1821, data histórica que marcou a independência do país. Os abalos foram tão poderosos que moradores de prédios altos em Manaus, Belém e Boa Vista sentiram os tremores e saíram de seus edifícios durante a noite, revelando a dimensão continental do evento.
Ruas da região central da Venezuela tomadas por escombros após o colapso de edifícios residenciais durante os tremores sequenciais de 24 de junho de 2026.
O que aconteceu
O primeiro tremor atingiu a região de San Felipe, no estado de Yaracuy, às 19h18 (horário local), com magnitude 7.2. Menos de um minuto depois, um segundo abalo ainda mais forte, de magnitude 7.5, sacudiu a região, com epicentro registrado na cidade de Montalbán, a uma profundidade de apenas 13 km, característica que define um terremoto raso e muito mais destrutivo por ocorrer próximo à superfície. Os dados foram confirmados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e repercutidos pelo G1, confirmando a gravidade do evento geológico.
Esse fenômeno, chamado de doblete sísmico, impediu qualquer reação organizada, pois muitos venezuelanos estavam em casa celebrando o feriado nacional de independência quando a terra tremeu pela primeira vez. Enquanto as pessoas tentavam evacuar os prédios após o primeiro impacto, o segundo tremor derrubou as estruturas comprometidas. Edifícios residenciais em Caracas, Maracay e La Guaira desabaram, rodovias foram bloqueadas por deslizamentos e o Aeroporto Internacional Simón Bolívar suspendeu todos os voos após o colapso de parte do teto do terminal, gerando caos logístico em todo o país.
Em questão de minutos, a Venezuela vivia seu pior desastre sísmico em mais de cem anos.
Mortos, feridos e desabrigados
O balanço oficial confirmado pelas autoridades venezuelanas é de 164 mortos, sendo a maioria esmagada por lajes de concreto em prédios sem reforço estrutural. Outros 971 feridos foram internados em hospitais e mais de 8.500 pessoas estão desabrigadas, abrigadas em acampamentos da Cruz Vermelha e ginásios esportivos, evidenciando a escala da crise humanitária no país.
Nas primeiras horas após os abalos, a destruição generalizada levou o USGS a emitir uma estimativa estatística preliminar indicando que o número de fatalidades poderia subir para a faixa entre 10 mil e 100 mil mortes. Em pronunciamento na televisão estatal, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, confirmou que prédios desabaram em Caracas e muitas casas vieram abaixo no interior, alertando que o número de vítimas e os danos materiais eram extensos e que o trabalho de resgate nas encostas densamente habitadas de Caracas e La Guaira seria complexo devido às habitações precárias e sem estrutura sismorresistente, exigindo esforços contínuos das equipes de socorro.
Defesa Civil isola área próxima a edifício que sofreu colapso estrutural completo na região central da Venezuela, enquanto equipes de resgate procuram sobreviventes nos escombros.
A destruição cidade por cidade
Em Caracas, o bairro de Chacao foi uma das áreas mais afetadas por colapsos parciais de estruturas e danos severos nas fachadas dos edifícios. Moradores relataram que paredes de cozinhas e quartos ruíram durante o segundo abalo, espalhando pânico. Em La Guaira, a principal rodovia que liga o porto de contêineres à capital ficou totalmente bloqueada por grandes deslizamentos de terra, interrompendo o fluxo logístico de suprimentos. Em Carabobo, hospitais públicos realizaram cirurgias emergenciais sob a luz improvisada de geradores após um apagão elétrico que paralisou 60% do estado, colocando o sistema de saúde sob extrema pressão.
A infraestrutura de telecomunicações venezuelana também sofreu danos graves. Cabos de fibra óptica foram rompidos em múltiplos pontos terrestres e a maior parte de Caracas permaneceu sem sinal de telefonia celular e internet nas primeiras horas, o que dificultou o envio de pedidos de socorro pelos moradores.
Fissuras profundas na fachada de um edifício comercial em Caracas, resultado direto da movimentação das placas tectônicas durante os abalos consecutivos.
Por que o terremoto foi tão destrutivo
A Venezuela está situada em uma junção tectônica altamente ativa, onde a Placa do Caribe colide diretamente com a Placa Sul-Americana ao longo de falhas geológicas ativas que cruzam o território venezuelano. Historicamente, essa região sofre com grandes sismos, incluindo o terremoto mortal de magnitude 6.3 que devastou a capital em 1967, deixando um expressivo de vulnerabilidade urbana.
No evento de 24 de junho, a ruptura na falha de San Sebastián liberou energia acumulada por décadas. Ambos os hipocentros situavam-se a profundidades de apenas 13 km e 10 km, o que caracteriza tremores rasos que transmitem ondas de choque de alta energia de forma direta para a superfície, ampliando o potencial de destruição estrutural.
A sismóloga Dra. Maria Gabriela Pereira, da Funvisis, agência de geofísica da Venezuela, explicou que o primeiro sismo de 7.2 serviu como um gatilho mecânico que desestabilizou um segmento contíguo de 45 km da falha sismogênica. O segundo abalo, ocorrido apenas 39 segundos depois, liberou o dobro da energia destrutiva acumulada. De acordo com previsões do USGS, réplicas secundárias com magnitude de 4.5 a 5.8 continuarão a ser registradas por semanas na região costeira, exigindo atenção máxima das autoridades de monitoramento.
Os tremores no Brasil
Embora os epicentros estivessem a mais de 1.800 km da fronteira brasileira, moradores de prédios altos no Norte do país sentiram os abalos claramente.
Em Manaus (AM) e Boa Vista (RR), condomínios foram evacuados às pressas. Em Belém (PA), o prefeito Igor Normando confirmou que edifícios nos bairros de Umarizal, Jurunas, Cremação e Pedreira foram esvaziados preventivamente. Em municípios do interior do Amazonas, como Barcelos e Iranduba, moradores registraram lustres balançando e armários se movendo.
As vistorias posteriores do Corpo de Bombeiros e das Defesas Civis locais confirmaram que não houve danos estruturais em território brasileiro. A energia sísmica chegou atenuada.
O sismólogo Dr. Marcelo Rocha, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), explicou que prédios altos funcionam como pêndulos invertidos e entram em ressonância com as ondas de longa distância, amplificando a percepção nos andares superiores. No nível do solo, segundo ele, o tremor era praticamente imperceptível.
Equipes de busca e salvamento com cães farejadores vasculham destroços à procura de sobreviventes sob o calor de Caracas nas horas seguintes ao desastre.
A resposta do governo e da comunidade internacional
A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o comando do comitê de crise e decretou estado de emergência nacional logo após os tremores. Cerca de 12.000 militares das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas foram mobilizados para desobstruir vias, evitar saques e auxiliar o resgate nas zonas afetadas.
O governo anunciou um fundo emergencial de reconstrução de US$ 200 milhões, com recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI), para restabelecer transportes e energia no país. A ONU e a Cruz Vermelha enviaram kits de purificação de água, abrigos e geradores para La Guaira. O presidente Lula expressou solidariedade ao povo venezuelano e colocou equipes brasileiras de busca e salvamento à disposição. O Itamaraty disponibilizou o contato de emergência consular da Embaixada em Caracas pelo número +58 414-3723337.
Logo após os sismos, o Sistema de Alerta de Tsunami dos Estados Unidos emitiu uma notificação de perigo para Porto Rico, Ilhas Virgens Americanas e Ilhas Virgens Britânicas, estendendo o monitoramento para Aruba, Curaçao e Bonaire. O alerta foi cancelado cerca de uma hora depois, quando sensores de pressão no fundo oceânico indicaram que não houve deslocamento de água significativo no Mar do Caribe, eliminando o risco de ondas gigantes na região.
Moradores evacuam prédios às pressas na capital venezuelana durante a madrugada, após os dois abalos consecutivos que sacudiram o país.
Quem viveu o terremoto conta
A publicitária Astrid Ramirez, de 41 anos, moradora da zona oeste de Caracas, relatou que ouviu pessoas gritando desesperadamente assim que o tremor começou e que todos correram em direção às escadas do prédio. Na zona leste da capital, a moradora Coro Martinez, de 56 anos, contou que ouviu um estrondo muito alto enquanto jarras e potes caíam dentro da geladeira, destacando que nunca tinha vivenciado algo parecido. Para Maria Romero, uma aposentada de 80 anos residente da zona sul, o terremoto foi terrível e superou a intensidade do abalo de 1967, acrescentando que a ajuda imediata da polícia foi fundamental para que ela conseguisse deixar a residência em segurança, ilustrando o clima de pânico e solidariedade nas ruas.
Alejandro Mendez, de 44 anos, morador do bairro Chacao, relatou que jantava quando o solo tremeu intensamente. Ele relembrou que correu com a família para o vão de uma porta e que, em menos de um minuto, o segundo abalo fez com que a parede de sua cozinha desabasse com um estrondo ensurdecedor, obrigando todos a descerem a escadaria guiados por lanternas em meio a uma densa nuvem de poeira, em um depoimento que ilustra a fragilidade das estruturas diante dos abalos.
Sofia Rodriguez, passageira evacuada do Aeroporto Simón Bolívar, contou que o terminal parecia balançar como se fosse construído de papelão. Ela descreveu que placas de revestimento do teto desabaram sobre as pessoas que corriam em pânico em busca das saídas e que o colapso do teto próximo à área de bagagens misturou-se aos alarmes de incêndio e gritos, em relatos impressionantes do momento de pânico generalizado no terminal.
Em Manaus, o analista de sistemas Carlos Eduardo Santos, morador do 14º andar de um edifício residencial, descreveu que a estrutura oscilou continuamente como um pêndulo. Ele relatou que pegou a filha no colo e desceu as escadas correndo, encontrando centenas de vizinhos aglomerados na calçada sem compreender a origem do abalo, mostrando o alcance geográfico da atividade sísmica.
Moradores reunidos nas avenidas amplas de Caracas aguardando a liberação da Defesa Civil e monitorando possíveis réplicas dos tremores.
Perguntas frequentes
Por que dois terremotos ocorreram tão seguidos?
O fenômeno é chamado de doblete sísmico. O primeiro abalo transfere estresse mecânico para um segmento vizinho da falha, que já estava próximo do limite. Quando esse segmento cede, ocorre o segundo terremoto em questão de segundos.
O Brasil corre risco com réplicas?
Não. As réplicas serão menores que os eventos principais e chegarão muito atenuadas ao território brasileiro. A Defesa Civil informou que não há risco de danos em solo nacional.
Houve risco de tsunami?
Um alerta foi emitido, mas descartado em duas horas. Os sensores oceânicos não detectaram deslocamento de água no Caribe.
Como ajudar as vítimas?
Por meio de doações à Cruz Vermelha Brasileira ou ao ACNUR, o programa de refugiados da ONU.
O que vem a seguir
A Venezuela enfrenta agora a fase mais difícil: reconstruir em meio às réplicas. Segundo o Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (Obsis/UnB), a atividade de réplicas deve se manter intensa por semanas, exigindo que famílias permaneçam em abrigos provisórios.
O evento reacende um alerta antigo: grande parte das construções venezuelanas foi erguida antes de normas sismorresistentes modernas. O terremoto de 2026 pode ser o ponto de virada para uma revisão urgente das políticas de infraestrutura urbana no país.
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